30.1.16

[Gralha que pousas e posas]

Gralha que pousas e posas
no texto com tal descuido,
a uns dias do Entrudo,
nem sei se abusas, se gozas;
mas se gozas, vai grasnar
com as pegas e araras,
pois até as aves raras
estão fartas de aturar
o deslize e, salvo erro
ou melhor opinião,
essa tua incorrecção,
sem laivos de desespero,
põe a nu, a descoberto
um grosseiro desacerto.

Domingos da Mota

[inédito]

27.1.16

Variações sobre o SONETO DO CROQUETE

                 de Luís Filipe Castro Mendes


Não fui embaixador. Mas o croquete
também me atravessou o gorgomilo:
intróito gustativo do banquete
servido com primor e melhor estilo;
não digo que o provei de mil maneiras,
por vezes era apenas mais um frete
que vinha coroar as costumeiras
retóricas balofas; e o topete
de tantos e tão hirtos comensais
que metiam no bolso alguns talheres
como se fossem modos naturais
de avaliar costumes e saberes,
em congressos, lições e conferências
de altas e supremas excelências.

Domingos da Mota

[inédito]

25.1.16

Parabéns?

Para males já bastam. Parabéns
oxalá os sentisse, mas não sinto;
não quero exagerar, mas os améns
amplificam os danos; não desminto
que se houvesse outra volta, o mal menor
talvez fosse melhor que este agora
que temos de aturar, em desfavor
do bem que não surdiu, e pese embora
a promessa assumida e reiterada
de que ninguém perdeu, não há vencidos,
continuo no meio da arruada
daqueles que não sendo distraídos,
não deixam de olhar com agudeza
para esta apagada e vil tristeza.

Domingos da Mota

[inédito]

24.1.16

Desafectos

Entra e sai, 
sai de mansinho,
devagar, 
devagarinho,
o amigo
que se amiga
e desamiga
cedinho.

Sempre em busca
dos afectos,
dos abraços
e dos beijos
ou de harpejos
mais selectos,
novos traços
e bosquejos;

modulando
os achaques,
as feridas
e os baques,
os lamentos
e os ais,
com insídias
e dislates

e remoques
guturais,
o amigo
desanima
quando não
encontra disso
e amua
e desatina:

põe-se a andar,
leva sumiço.

Domingos da Mota

[inédito]

23.1.16

Anja

     a José Rodrigues



Anja esculpida
em metal fundente

ora incandescente:
em carne viva

Domingos da Mota

Bolsa de Valores e Outros Poemas, Temas Originais, Lda., Coimbra, 2010

21.1.16

A peste

Se as pessoas pensam
e pensando dizem
aquilo que pensam,
por que contradizem
o que foi pensado,
tudo o que foi dito
e até sublinhado
e o dão por não dito?
Será pensamento
uma ideia à toa,
assim como o vento
que sopra e ressoa
e alastra no ar
a peste larvar?

Domingos da Mota

[inédito]

20.1.16

Os cogumelos

São como os bancos
os cogumelos,
tóxicos, tantos,
como escolhê-los?

E sendo quantos
tão perigosos,
falo dos bancos
contagiosos,

digo: oxalá
que os tortulhos
não causem já
fatais engulhos.

Domingos da Mota

[inédito]

19.1.16

Branco no Branco

V


Um amigo é às vezes o deserto,
outras a água.
Desprende-te do ínfimo rumor
de agosto; nem sempre

um corpo é o lugar da furtiva
luz despida, de carregados
limoeiros de pássaros
e o verão nos cabelos;

é na escura folhagem do sono
que brilha
a pele molhada,
a difícil floração da língua.

O real é a palavra.

Eugénio de Andrade

Branco no Branco, Editora Limiar, Setembro de 1984

18.1.16

As aspas

   Porque a literatura é uma arte
     escura de ladrões que roubam a ladrões.

     Manuel António Pina


São apenas umas aspas

(não é tinha nem é caspa
nem é usocapião)

que nos indicam as fontes,

ampliam horizontes
ou nos estendem a mão.

Sobretudo marcas d'água,

das que separam as águas
no leito do mesmo rio.

Não é tinha nem é caspa:

são apenas umas aspas
de arranjos para assobio.

Domingos da Mota


[revisto]

14.1.16

Se hoje é dia disto

Se hoje é dia disto, eu sou daquilo;
se é dia da poesia, a minha prosa
pesada e sopesada, quilo a quilo,
não deixa de ser líquida ou gasosa;

se é dia do leitor, mesmo que leia
e releia e tresleia tanta vez
e até confunda o canto da sereia
com o leve presságio dum revés,

para ler não me basta um dia só,
muito menos se o faço por prazer:
quando a trama apetece e aperta o nó
que estimula o enredo, vou reler,

volto atrás, paro, avanço e busco a fonte
que fica para lá do horizonte.

Domingos da Mota

[inédito]

13.1.16

Leva artes de pavão

Vira à esquerda e à direita
o impostor do dianho
e com tal jeito se ajeita
na ilusão do rebanho

que não há mal nem maleita
que possa desfeitear
a faculdade perfeita
de tão bem dissimular.

Vai à feira vender galos,
leva artes de pavão;
não há como refreá-lo,
ao olhar a multidão

que na feira compra gato
por lebre, ao desbarato.

Domingos da Mota

[inédito]

11.1.16

recado

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno almoço

Al Berto

HORTO DE INCÊNDIO, Assírio & Alvim. Lisboa, Março de 1977

9.1.16

Chove a cântaros

Chove a cântaros, chove
e chovendo assim,
nada me demove
de ficar aqui

a olhar, a ver,
a reparar que a chuva
deixa perceber
como fica turva

a luz que anuncia
uma tarde escura,
fechada e sombria,
pela catadura.

Domingos da Mota

[poema para este sábado de Janeiro]

A MESA

O jornal dobrado
sôbre a mesa simples;
a toalha limpa, 
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde:
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresco como o pão.

João Cabral de Melo Neto

POESIA COMPLETA, 1940-1980, Prefácio de Óscar Lopes, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Maio de 1986

7.1.16

Soneto da memória

Cheguei depressa aqui: o tempo passa
veloz como um pardal, de pulo em pulo,
por vezes distraído da ameaça
do gato que se esconde atrás do muro;

o tempo que não pára, e continua
(se alguém tropeça e cai, o tempo segue), 
e vai e acelera e acentua
a espiral impassível que persegue.

Cheguei depressa aqui: entre o presente
e o passado que trago sobre os ombros,
recordo os que partiram para sempre,
alguns quase esquecidos nos escombros

da memória que resta e, deste jeito,
reavivo o pretérito imperfeito.

Domingos da Mota

[revisto]

2.1.16

O TER E O DAR

Não me peças, ó vida, o que não dás.
Se o que sempre pedi nunca me deste,
e ao que não me atrevera tu trouxeste
às minhas mãos sem jeito de o conter,

para que pedes o que não me dás?
Se nada tenho do que desejara
e tendo tanto por que não esperara,
como hei-de dar-te, sem jamais saber

que meu foi teu, que teu foi meu, que nosso
foi só de empréstimo, como hei-de ou posso,
entre o que tenho, decidir e dar?

E como ao que não tenho hei-de perder,
pelo que me darias a escolher
como se fora tempo de acabar?

1961

Jorge de Sena

PEREGRINATIO AD LOCA INFECTA
70 POEMAS E UM EPÍLOGO, Portugália Editora, Lisboa, Setembro de 1969