18.3.12

A CRIANÇA QUE RI

LXV

Nunca nada dito. Sempre  nada dito. Calar  de vez o silêncio. Se eu che-
gar até onde não  cheguei, cheguei. Se não até mim tu chegas. Se fosse
minha a tua noite, seria nossa a nossa noite.

Sempre nada dito.

Concretizar  o sonho  de ir contigo  até ao quarto  da luz  clara. Tal e qual
o cântico da  manhã. O que resta, desdenhemo-lo. Desdenhemos a cabe-
ça pensante de quatro patas. A bactéria assassina que  anda nos nossos
passos e  o mundo da fantasia negra. Esqueçamos  tudo, rapariga, juntos
faremos uma  viagem de comboio  até à tua e  até à minha terra. Temos o
pincel e a espátula. A folha e a caneta. O  gesto certeiro. Nenhum vestígio
deixaremos  para trás deste  mal  que nos aflige. Aonde tu  foste os meus
olhos seguir-te-ão. Serei uma sombra  parda a abrir-te caminho até ao sol.

Não te  enganes  que na  terra  do  nunca  nada  dito se  não falarmos  eu 
não  te  encontro. Na  terra do  nunca  nada  dito se as palavras  falharem
eu não te encontro. É uma  questão  de ângulo. E de eu te  dizer, está na
hora. E de tu mo dizeres.

Carlos Torres Figueiredo

A CRIANÇA QUE RI, PRÉMIO DE POESIA EUGÉNIO DE ANDRADE 2011, Modo de Ler - Editores e Livreiros, Lda, Porto, 2012

2 comentários:

  1. carlos torres figueiredo20:42:00

    Obrigado.

    Carlos Torres Figueiredo

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  2. Caro Poeta,

    Eu é que me sinto honrado com a publicação deste seu belo poema no blogue. Bem avisado foi o júri que lhe concedeu o prémio de poesia Eugénio de Andrade. Os meus parabéns, e o meu agradecimento.

    DM

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