30.1.13

Canção do gato neutro

                                             à memória de Manuel António Pina


É preciso ser-se cruel (ou ímpio ou indiferente)
para gizar um plano destes. Conchegá-lo
a noite inteira e arrancar de madrugada pelo
frio de dezembro para o tornar um gato neutro.
Oh, cínico eufemismo. É preciso ser-se homem para
poder compreender que
«neutro» nunca será um
felino que perdeu a doce agressividade (o
esgar provocador ao arrulhar sua dona
o desleixo varonil de urinar no seu canto)
sem nunca ter tido o prazer de rondar
uma gatita. Como te vou receber quando
regressares a casa (cicatriz
no baixo ventre
dormente e abatido) o
olhar enlanguescido impassível de apagar
se fui eu o responsável por te levar pela manhã
se não o arquitecto do plano seu
dúplice executante?
«Neutro» dizem elas
estás «neutro». Confiavas gato em mim
como se abraça um pai ou
um desses bosn amigos da cruel adolescência
que às ocultas nos levavam à mundana
iniciação. «Neutro» dizem elas
estás «neutro». Hitler não
diria melhor.

João Luís Barreto Guimarães

você está aqui, Quetzal Editores, Janeiro de 2013

28.1.13

CANETA DE SUA MÃO

                                                                (Para a Celina)


Seguro esta caneta, escrevendo
por varanda de hospital. É bonita,
a caneta, eu é que tenho estado
um pouco mal. Derramei-me por

sangue e tinta preta, reeencontrei
o sol, as borboletas roçaram-me
o seu pólen de veneno, salvou-me
um balão de horas e formol.

Suspenso, o mal que tive foi um mal
civil, não foi um mal de Império,
felizmente. É bonita a caneta

com que escrevo daqui, desta varanda
de hospital. E não é feia a minha
mão. E é pequena. E sente.

Ana Luísa Amaral

Entre dois rios e outras noites, Campo das Letras - Editores, S. A., Porto, Novembro de 2007

27.1.13

A Poesia

          Para Carlito Azevedo


seta sem forma,
a poesia,
perpassa,
atravessa
a sala,
o quarto,
o inabitável,
revira as gavetas
do armário,
voraz,
veloz,
perfura o in-
visível
e acerta o

íntimo:
dardo sem fins,
a poesia,
ultrapassa
a conversa e
o cerne do silêncio,
perfura a frágil folha
da existência,
às cegas,
salta
do imprevisto,
sobre as sobras
do infinito
e crava-se em

algum sentido:
lança sem freio,
a poesia,
traspassa,
dispersa-se,
sem código de barras
ou marca d'água,
afunda-se
no istmo do que se saiba,
faca afiada, pronta
pra tudo
ou nada,
finca-se
em si.

Adriano Nunes

com os meus agradecimentos, de LARINGES DE GRAFITE, Edição Vidráguas, Porto Alegre, Brasil, primavera de 2012

25.1.13

Errata

Onde se lê isto, deve ler-se aquilo.
Onde se lê assim, deve ler-se assado.
Onde se lê estranho, deve ler-se estilo
(Um modo de ler mais aproximado).

Onde se lê escassez, deve ler-se usura.
Onde se lê gordura, deve ler-se a pele
E o osso, a brusca secura
Que enche de curvas a folha de Excel.

Onde se lê meio, deve ler-se margem.
Onde se lê carência, deve ler-se fome.
Onde se lê tempo, deve ler-se voragem.
Onde se lê número, deve ler-se nome.

Onde se lê ruína, deve ler-se fim.
Onde se treslê, não se leia assim.

Domingos da Mota

(a partir da leitura do poema Errata, de Manuel de Freitas, no livro A ÚLTIMA PORTA, selecção e posfácio de José Miguel Silva, Assírio & Alvim, Março 2010).

19.1.13

[A água é tão fria]

A água é tão fria
Como pode a gaivota
adormecer?

Matsuo Bashô

O GOSTO SOLITÁRIO DO ORVALHO seguido de O CAMINHO ESTREITO, versões e introdução de Jorge Sousa Braga, Assírio & Alvim, Lisboa, Maio 2003

15.1.13

Helder Moura Pereira

NOME DE RUA


Escolhes o ângulo, recto
no momento previsto.
És os passos que vejo
do chafariz das terras,
a rua cruzando a rua.

Sol e pedras
neste destino, a tarde
arrefecendo entre esperanças
e outro banco
deserto a esta hora.

Mais linhas
neste ferro, chicote
de palavras, alimento
do terreno da terra
distante, paixão.

Escolhes uma certeza
vaga, por isso abres
a fonte dos insectos
e limpas dos limos
a cisterna, a vida.

Helder Moura Pereira

CARTA DE RUMOS, &etc, Lisboa, Junho de 1989

12.1.13

PLANO DE EVASÃO

Que mais podemos fazer?
Este amor é um país cansado

que não nos deixa mudar.
O medo cerca as fronteiras

e a capital é Nenhures,
cidade de perdulários

e pequenas ruas tortas
onde vem morrer a noite --

aqui estamos ambos sós,
desunidos, extraviados,

não há táxis na praceta
nem cinzeiros nos cafés

e perdemos os amigos
entre curvas de um enredo

que deixámos de seguir.
Mas não era nada disto

o que tinha na cabeça
ao começar a escrever:

os versos chamam o escuro,
abrem os portões ao frio

e eu quero estar nas colinas
do outro lado do rio.

Rui Pires Cabral

LADRADOR, Averno, 2012

10.1.13

À Espera dos Bárbaros (Konstantinos Kaváfis)

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Poe que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

Konstandinos Kavafis

Trecho de "À Espera dos Bárbaros", de Konstantinos Kaváfis,
Tradução, José Paulo Paes

(Carlos Willian Leite, Os 10 melhores poemas de todos os tempos, Opção Cultural, Jornal Opção)

7.1.13

[Antemanhãs como essa, em que assassinos]

Antemanhãs como essa, em que assassinos
avançam para o sangue no silêncio
frio da noite, tem havido tantas
que já nem se ouve o grito degolado
com que a vida termina de repente.
Há muito se tornaram em costume.
Assim Inês, assim os outros todos
que a História não regista. Todavia,
vivemos sobre mortos que nos gritam
quando acordam. Inês e Lorca gritam
Se le vio caminando entre fusiles»),
grita ainda no Prado o homem de Goya,
longos versos de Sena aos fuzilados.
Revolvo-me ao ouvi-los, Inês bela.
Não conheço justiça que os redima,
e, com eles, os outros mortos todos
que nenhum deus salvou da madrugada.

Nuno Dempster

Pedro e Inês: Dolce Stil Nuovo, Edições Sempre-em-Pé, Setembro 2011

2.1.13

BOM E EXPRESSIVO

Acaba mal o teu verso,
mas fá-lo com um desígnio:
é um mal que não é mal,
é lutar contra o bonito.

Vai-me a essas rimas que
tão bem desfecham e que
são o pão de ló dos tolos
e torce-lhes o pescoço,

tal como o outro pedia
se fizesse à eloquência,
e se houver um vossa excelência
que grite: -- Não é poesia!,

diz-lhe que não, que não é,
que é topada, lixa três,
serração, vidro moído
papel que se rasga ou pe-

dra que rola na pedra...
Mas também da rima «em cheio»
poderás tirar partido,
que a regra é não haver regra,

a não ser a de cada um,
com sua rima, seu ritmo,
não fazer bom e bonito,
mas fazer bom e expressivo...

Alexandre O' Neill

tomai lá do O'NEILL! uma antologia [POEMAS COM ENDEREÇO], Círculo de Leitores, 1986

1.1.13

Arte poética

Por cada verso feito quantas noites
desfeitas e mulheres transfiguradas,
madrugadas, cidades, auto-estradas,
montes de cartas, mortos e ausentes.

Por cada verso feito me despeço
dêste mundo, em pedaços repartido,
pois só consigo reunir-me quando fundo
império de poema nunca escrito.

António Barahona

O Som do Sôpro, Lisboa, Poesia Incompleta, in RESUMO poesia em 2011, poemas escolhidos por Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel de Freitas, Assírio & Alvim, Março de 2012